Coesão Referencial

Coesão

Como disse no artigo anterior, veremos agora um dos tipos de coesão, a coesão referencial. Caso queira ler os outros artigos dessa série sobre uma das competência mais cobradas na redação do Enem, clique neste link e leia. Visite também nosso artigo que mostra como fazer uma redação nota 1000 no Enem.

O que é Coesão referencial

A coesão referencial é realizada por elementos da língua cujo papel é indicar, assinalar a referência (alusão), ou seja, são dependentes da referência para serem interpretados. Veja, a seguir, os elementos linguísticos que realizam a coesão referencial.

Pronomes pessoais (ele, ela, nós, o, a, lhe e flexões)

a) Em 1996, o psicólogo iniciou o trabalho de campo. Durante cinco anos, ele trabalhou como gari, de um a três dias por semana no campus da Cidade Universitária da capital paulista.

b) Um exemplo: enquanto pessoas da classe média não cumprimentam o gari por entenderem que não se trata de uma pessoa, mas sim de uma função, ele tenta se proteger da violência da invisibilidade, não respondendo a um eventual cumprimento.

Nesses fragmentos, os pronomes pessoais ele, no item a, e ele e se, no item b, tomam como referência, respectivamente, os termos o psicólogo e o mencionados nas orações anteriores. Sem essa referência, os pronomes ficariam privados de interpretação, deixando o texto sem sentido como exemplificam as sentenças a seguir, onde eliminamos a referência da primeira e substituímos a da segunda por um pronome também dependente da referência. Veja:

a) Em 1996, iniciou o trabalho de campo. Durante cinco anos, ele trabalhou como gari, de um a três dias por semana no campus da Cidade Universitária da capital paulista.

b) Um exemplo: enquanto pessoas da classe média não o cumprimentam por entenderem que não se trata de uma pessoa, mas sim de uma função, ele tenta se proteger da violência da invisibilidade, não respondendo a um eventual cumprimento.

Advérbios (aqui, ali, lá, aí)

Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Chegando , eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles.  Mas os garis sacaram logo; entretanto, nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também.

O que há de mais importante nesse exemplo é o fato de os advérbios lá e ali poderem tomar como referente a mesma palavra rua e/ou a palavra USP, local de trabalho dos garis, embora o primeiro advérbio possa ser interpretado como antecipando a referência, ao passo que o segundo realiza a coesão remetendo a ela.

Outra interpretação possível para a ocorrência do advérbio lá é torná-lo como uma referência anafórica a um termo mencionado explicitamente apenas no início do texto, mas implícito na pergunta realizada pelo repórter de O Diário Vermelho: trata-se da expressão no campus da Cidade Universitária da capital paulista, local de trabalho experimental do psicólogo como gari.

Artigos definidos o, a, os, as e suas contrações (no, na, nos, nas)

Nós estávamos varrendo, e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar […]

Há oposição entre os artigos indefinidos que acompanham o substantivo, indeterminando-o (um dos garis e um sujeito), e os artigos definidos (O sujeito e O gari), que cumprem a função textual de retomar os substantivos indefinidos já mencionados, determinando-os e criando a coesão necessária. Repare que, se repetíssemos o indefinido, a sentença soaria como não gramatical, comprometendo a coesão das duas sentenças e dando a impressão de se tratar de dois sujeitos diferentes. Veja:

De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. Um sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou.

Pronomes possessivos (meu, teu, seu e flexões)

a) Fazendo-se passar por gari, o psicólogo Fernando Braga da Costa varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado sobre a “invisibilidade pública”.

b) Braga trabalhava apenas meio período como I gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida: “Descobri que um simples ‘bom-dia’ que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência”, explica o pesquisador.

Nesses dois exemplos, o possessivo sua retoma o nome próprio ou parte dele (ambos em negrito nos trechos), já mencionados anteriormente. O recurso permite a progressão textual de modo coeso.

Pronomes demonstrativos (este, esse, aquele e suas flexões)

a) Fernando cursava o segundo ano da faculdade e tinha uma disciplina voltada ao propósito de psicólogos desenvolverem estudos, engajando-se na atividade escolhida. Esse método é conhecido como etnográfico.

b) Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos.

Os demonstrativos esse e esses, nesses fragmentos, e seus respectivos substantivos encontram sua referência em expressões mencionadas antes: no primeiro caso, a junção de esse e método (item a) retoma, resumindo, toda a sequência destacada anteriormente. Tal tipo de coesão, por síntese, também aparece em essa experiência (item b); no segundo caso, a combinação esses homens remete o leitor para a palavra garis, mencionada várias vezes.

O uniforme simboliza a invisibilidade; temos de mudar isso, pois também se trata de uma violência.

O uso do demonstrativo isso retoma não só uma palavra, mas toda a oração antecedente. Há outro uso dos demonstrativos como operadores de coesão, em sequências como:

Os garis e o psicólogo Fernando Braga da Costa trabalharam juntos, varrendo as ruas da USP. Este ganhou notoriedade por sua esclarecedora pesquisa; aqueles, entretanto, continuam no anonimato.

O uso dos pronomes este e aqueles, nesse caso, configura um exemplo clássico de coesão referencial por meio dos demonstrativos.

Numerais (primeiro, segundo, ambos, etc.)

a) Com o mestrado, a pesquisa se desenvolveu em dois níveis. No primeiro, conhecer e avaliar as condições de trabalho dos garis, bem como as condições morais e psicológicas nas quais estão inseridos na cena pública. No segundo, analisar as aberturas e barreiras psicossociais que operam nos encontros entre o psicólogo social e os garis, ou seja, se havia aproximação e de que forma.

b) Fernando e um gari resolveram almoçar no bandejão central da USP. Ambos se tornaram “invisíveis” pelo simples fato de estarem vestidos como garis.

Observe que, em ambos os exemplos, os numerais em negrito referem-se a termos mencionados antes.

É isso. Continue seus estudos verificando os artigos dessa série sobre coesão textual.

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